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A Forma da Água

26 Janeiro 2018

Críticas

Guilherme del Toro nos mostra que o amor se molda como a água.

por: Ramires Silva

A Forma da Água | Sou Brasília

É lindo ver um artista se realizando em totalidade com sua obra, é o que podemos dizer sobre a relação do diretor Guilherme del Toro e seu mais recente filme, A Forma da Água. Quem acompanha a carreira do roteirista, produtor e diretor irá compreender ao que me refiro. Todos os aspecto do filme são atos confirmados do que del Toro sempre quis fazer, seja uma fala no roteiro, uma temática, uma estética e/ou um personagem. Talvez seja por isso que ao mesmo tempo que belo, A Forma da Água navega em diversos clichês, não entrega muitas surpresas e acaba se revelando como uma história “fofa” com ideias recicladas.

Praticamente tudo que vemos em A Forma da Água, já vimos em outros filmes de del Toro, neste acompanhamos a história de Elisa (Sally Hawkins), uma zeladora muda que trabalha em um laboratório experimental secreto do governo, que ao se afeiçoar com uma criatura mantida no local, arquiteta um plano para libertá-la. Assim, Elisa é como Ophelia de O Labirinto do Fauno (2006) e a criatura é praticamente uma cópia do personagem Abe Sapien de Hellboy (2004). As semelhanças não param por aí, mas felizmente o contexto nos ajuda a encaixar tudo isso em uma nova história.

Os quesitos técnicos são louváveis, a fotografia de Dan Laustsen (que já trabalhou outras vezes com del Toro) conversa bem com o clima tenso nos EUA dos anos 60, mas encontra um bom equilíbrio com a delicadeza do romance. A criatura não é muito exigida em termos de atuação, Doug Jones tem o porte físico certo, mas o trabalho impecável de maquiagem fala mais pelo personagem do que está ao alcance do ator. Michael Shannon, que vive o vilão coronel Strickland, está bem como sempre. A sua personagem passa sempre o tom ameaçador e de perigo que é preciso para a história, embora muito das suas ações e de outros como um todo são previsíveis. Já Sally Hawkins está ótima como Elisa, a dificuldade de interpretar uma personagem muda tão diferente de outras que já foram retratadas no cinema, sempre como pessoas ingênuas, é brilhantemente contornada por ela e com a ajuda do roteiro escrito pelo próprio Guilherme del Toro e Vanessa Taylor. Há uma cena cômica em questão que resume bem isso, na qual mostra perfeitamente tudo que o espectador quer dizer para um certo personagem e Elisa do seu modo, diz.

Aliás, o roteiro é sem dúvidas o maior mérito desse filme. Embora, algumas coisas paralelas contidas nele nos tirem desse contexto, o principal é: como nos fazer crer que uma mulher pode se apaixonar por uma criatura não-humana anfíbia e vice-versa? A resposta consiste em deslocar a personagem de uma das coisas que nos torna mais “humanos”. A incapacidade de se comunicar por fala a faz ter uma percepção diferente de todos os outros, e assim, torna-se capaz de se apaixonar por quem a enxerga como ela é, sem faltas. Esse detalhe sensível é o que nos prende na narrativa, com os questionamentos que o filme levanta em poucas palavras ou gestos dos personagens. E o poema recitado no final do filme conecta bem o título com o enredo, servido como um ótimo resumo: o amor não tem forma, é como a água que se molda ao recipiente em que está.

8.2 / 10

Ficha Técnica:

Direção: Guillermo del Toro
Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins
Gênero: Fantasia, Drama, Romance

Sinopse:

Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer).

Horários:

Cinemark
Kinoplex

Trailer

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Sobre o autor:

Ramires Silva

Ramires Silva

Publicitário pós-graduado em cinema que não vive sem música, cinema e mistérios que permeiam o universo. Reside em Brasília e ganha a vida como designer e developer.

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